sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012


Jornalista ameaçado: somos todos Lúcio Flávio

Em solidariedade ao jornalista  existe o blog TODOS COM LÚCIO FLÁVIO PINTO destinado a ajudá-lo a arrecadar fundos para pagar a indenização pelas denúncias veiculadas em seu jornal.  
Aqui os dados para as doações:
Banco do Brasil
Agência 3024-4
Conta poupança, variação 1, 22.108-2
CPF do titular: 212.046.162-72
O titular da conta e responsável pela administração do fundo é Pedro Carlos de Faria Pinto, irmão do jornalista.
O valor a ser pago por Lúcio Flávio Pinto à família do grileiro será bem superior aos R$ 8 mil estipulados pela justiça paraense à época da condenação, em virtude da correção monetária necessária para os últimos seis anos.
E lembre-se na hora de contribuir: conta-poupança.

Para entrar em contato com Lúcio Flávio Pinto:

Rua Aristides Lobo, 871.
66053-020 Reduto
Belém - PA
Fone: +55 (91)3241-7626
e-mail: jornal@amazon.com.br
Para reportar erros no conteúdo do portal ou problemas de cadastro de usuários no site, envie um email para: webmaster@lucioflaviopinto.com.br


Divulgue informações, crie conteúdo, manifeste apoio e sugira ações em defesa do jornalista. Porque somos todos Lúcio Flávio Pinto.

 ©LuizPinto

É um momento importante, na vida de Lúcio Flávio Pinto, momento importante na sua luta como jornalista, como pessoa humana e como cidadão brasileiro.
Eu imagino sua solidão, sua decepção.
Lúcio Flávio Pinto, penso em você.
Silvana.

Canção do Tamoio
Antônio Gonçalves Dias (1823-1864)


I
Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.

II
Um dia vivemos!
O homem que é forte
Não teme da morte;
Só teme fugir;
No arco que entesa
Tem certa uma presa,
Quer seja tapuia,
Condor ou tapir.

III
O forte, o cobarde
Seus feitos inveja
De o ver na peleja
Garboso e feroz;
E os tímidos velhos
Nos graves concelhos,
Curvadas as frontes,
Escutam-lhe a voz!

IV
Domina, se vive;
Se morre, descansa
Dos seus na lembrança,
Na voz do porvir.
Não cures da vida!
Sê bravo, sê forte!
Não fujas da morte,
Que a morte há de vir!

V
E pois que és meu filho,
Meus brios reveste;
Tamoio nasceste,
Valente serás.
Sê duro guerreiro,
Robusto, fragueiro,
Brasão dos tamoios
Na guerra e na paz.



VI
Teu grito de guerra
Retumbe aos ouvidos
D'imigos transidos
Por vil comoção;
E tremam d'ouvi-lo
Pior que o sibilo
Das setas ligeiras,
Pior que o trovão.

VII
E a mão nessas tabas,
Querendo calados
Os filhos criados
Na lei do terror;
Teu nome lhes diga,
Que a gente inimiga
Talvez não escute
Sem pranto, sem dor!

VIII
Porém se a fortuna,
Traindo teus passos,
Te arroja nos laços
Do inimigo falaz!
Na última hora
Teus feitos memora,
Tranqüilo nos gestos,
Impávido, audaz.

IX
E cai como o tronco
Do raio tocado,
Partido, rojado
Por larga extensão;
Assim morre o forte!
No passo da morte
Triunfa, conquista
Mais alto brasão.

X
As armas ensaia,
Penetra na vida:
Pesada ou querida,
Viver é lutar.
Se o duro combate
Os fracos abate,
Aos fortes, aos bravos,
Só pode exaltar.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

NOTA AO PÚBLICO,

DE LÚCIO FLÁVIO PINTO - 14/02/2012



CONTRA A INJUSTIÇA

No dia 7 o presidente do Superior Tribunal de Justiça, ministro Ari Pargendler, decidiu negar seguimento ao recurso especial que interpus contra decisão da justiça do Pará. Nos dois graus de jurisdição (no juízo singular e no tribunal), o judiciário paraense me condenou a indenizar o empresário Cecílio do Rego Almeida por dano moral.

O dono da Construtora C. R. Almeida, uma das maiores empreiteiras do país, se disse ofendido porque o chamei de “pirata fundiário”, embora ele tenha se apossado de uma área de quase cinco milhões de hectares no vale do rio Xingu, no Pará. A justiça federal de 1ª instância anulou os registros imobiliários dessas terras, por pertencerem ao patrimônio público.

O presidente do STJ não recebeu meu recurso “em razão da deficiente formação do instrumento; falta cópia do inteiro teor do acórdão recorrido, do inteiro teor do acórdão proferido nos embargos de declaração e do comprovante de pagamento das custas do recurso especial e do porte de remessa e retorno dos autos”. Ou seja: o agravo de instrumento não foi recebido na instância superior por falhas formais na juntada dos documentos que teriam que acompanhar o recurso especial.

O despacho foi publicado no Diário Oficial eletrônico do STJ no dia 13. A partir daí eu teria prazo de 15 dias para entrar com um recurso contra o ato do ministro. Ou então através de uma ação rescisória. O artigo 458 do Código de Processo Civil a prevê nos seguintes casos:

“Se verificar que foi dada por prevaricação, concussão ou corrupção do juiz; proferida por juiz impedido ou absolutamente incompetente; resultar de dolo da parte vencedora em detrimento da parte vencida, ou de colusão entre as partes, a fim de fraudar a lei; ofender a coisa julgada; violar literal disposição de lei; se fundar em prova, cuja falsidade tenha sido apurada em processo criminal, ou seja, provada na própria ação rescisória; depois da sentença, o autor obtiver documento novo, cuja existência ignorava, ou de que não pôde fazer uso, capaz, por si só, de lhe assegurar pronunciamento favorável; houver fundamento para invalidar confissão, desistência ou transação, em que se baseou a sentença; fundada em erro de fato, resultante de atos ou de documentos da causa”.

Como o ministro do STJ negou seguimento ao agravo, a corte não pode apreciar o mérito do recurso especial. A única sentença de mérito foi a anterior, do Tribunal de Justiça do Estado, que confirmou minha condenação, imposta pelo juiz substituto (não o titular, portanto, que exerceu a jurisdição por um único dia) de uma das varas cíveis do fórum de Belém. Com a ação, o processo seria reapreciado.

Advogados que consultei me recomendaram esse caminho, muito trilhado em tais circunstâncias. Mas eu teria que me submeter outra vez a um tribunal no qual não tenho mais fé alguma. É certo que nele labutam magistrados e funcionários honestos, sérios e competentes. Também é fato que alguns dos magistrados que agiram de má fé contra mim já foram aposentados, com direito a um fare niente bem remunerado – e ao qual não fizeram jus.

Mas também é verdade que, na linha de frente e agindo poderosamente nos bastidores, um grupo de personagens (para não reduzi-lo a uma única figura fundamental) continua disposto a manter a condenação, alcançada a tanto custo, depois de uma resistência extensa e intensa da minha parte.

Esse grupo (e, sobretudo, esse líder) tem conseguido se impor aos demais de várias maneiras, ora pela concessão de prêmios e privilégios ora pela pressão e coação. Seu objetivo é me destruir. Tive a audácia de contrariar seus propósitos e denunciar algumas de suas manobras, como continuo a fazer, inclusive na edição do meu Jornal Pessoal que irá amanhã às ruas.

A matéria de capa denuncia a promoção ao desembargo de uma juíza, Vera Souza, que, com o concurso de uma já desembargadora, Marneide Merabet, ia possibilitar que uma quadrilha de fraudadores roubasse 2,3 bilhões de reais da agência central de Belém do Banco do Brasil.

A mesma quadrilha tentou, sem sucesso, aplicar o golpe em Maceió, Florianópolis e Brasília. Foi rechaçada pelas justiças locais. Em Belém encontrou abrigo certo. Afinal, também não foi promovida ao topo da carreira uma juíza, Maria Edwiges de Miranda Lobato, que mandou soltar o maior traficante de drogas do Norte e Nordeste do país. O ato foi revisto, mas a polícia não conseguiu mais colocar as mãos no bandido e no seu guarda-costas. Punida com mera nota de censura reservada, a magistrada logo em seguida subiu ao tribunal.

Foi esse o tribunal que teve todas as oportunidades de reformar a iníqua, imoral e ilegal sentença dada contra mim por um juiz que só atuou na vara por um dia, só mandou buscar um processo (o meu), processo esse que não estava pronto para ser sentenciado (nem todo numerado se achava), levou os autos por sua casa no fim de semana e só o devolveu na terça-feira, sem se importar com o fato de que a titular da vara (que ainda apreciava a questão) havia retornado na véspera, deixando-o sem autoridade jurisdicional sobre o feito. Para camuflar a fraude, datou sua sentença, de quatro laudas, em um processo com mais de 400 folhas, com data retroativa à sexta-feira, quatro dias antes. Mas não pôde modificar o registro do computador, que comprovou a manobra.

De posse de todos os documentos atestando os fatos, pedi à Corregedoria de Justiça a instauração de inquérito contra o juiz Amílcar Bezerra. A relatora, desembargadora Carmencim Cavalcante, acolheu meu pedido. Mas seus pares do Conselho da Magistratura o rejeitaram. Eis um caso a fortalecer as razões da Corregedora Nacional de Justiça, Eliana Calmon, contra o corporativismo, que protege os bandidos de toga.

Apelei para o tribunal, com farta documentação negando a existência do ilícito, já que a grilagem de terras não só foi provada como o próprio judiciário paraense demitira, por justa causa, os serventuários de justiça que dela foram cúmplices no cartório de Altamira. O escândalo se tornara internacional e, por serem federais partes das terras usurpadas, o interesse da União deslocou o feito para a justiça federal, que acolheu as razões do Ministério Público Federal e anulou os registros fraudulentos no cartório de Altamira, decisão ainda pendente de recurso.

O grileiro morreu em maio de 2008. Nesse momento, vários dos meus recursos, que esgotavam os instrumentos de defesa do Código de Processo Civil, estavam sendo sucessivamente rejeitados. Mas ninguém se habilitou a substituir C. R. Almeida. Nem herdeiros nem sucessores. Sua advogada continuou a funcionar no processo, embora a morte do cliente cesse a vigência do contrato com o patrono. E assim se passaram dois anos sem qualquer manifestação de interesse pela causa por parte daqueles que podiam assumir o pólo ativo da ação, mas a desertaram.

A deserção foi reconhecida pelo juiz titular da 10ª vara criminal de Belém, onde o mesmo empreiteiro propusera uma ação penal contra mim, com base na extinta Lei de Imprensa. Passado o prazo regulamentar de 60 dias (e muitos outros 60 dias, até se completarem mais de dois anos), o juiz declarou minha inimputabilidade e extinguiu o processo, mandando-o para o seu destino: o arquivo (e, no futuro, a lata de lixo da história).

Na instância superior, os desembargadores se recusavam a reconhecer o direito, a verdade e a lei. Quando a apelação estava sendo apreciada e a votação estava empatada em um voto, a desembargadora Luzia Nadja do Nascimento a desempatou contra mim, selando a sorte desse recurso.

A magistrada não se considerou constrangida pelo fato de que seu marido, o procurador de justiça Santino Nascimento, ex-chefe do Ministério Público do Estado, quando secretário de segurança pública, mandou tropa da Polícia Militar dar cobertura a uma manobra de afirmação de posse do grileiro sobre a área cobiçada. A cobertura indevida foi desfeita depois que a Polícia Federal interveio, obrigando a PM a sair do local.

Pior foi a desembargadora Maria Rita Xavier. Seu comportamento nos autos se revelou tão tendencioso que argüi sua suspeição. Ao invés de decidir de imediato sobre a exceção, ela deu sumiço à minha peça, que passei a procurar em vão. Não a despachou, não suspendeu a instrução processual e não decidiu se era ou não suspeita. Ou melhor: decidiu pelos fatos, pois continuou impávida à frente do processo.

Meus recursos continuaram a ser indeferidos ou ignorados, quando alertava a relatora e os desembargadores aos quais meus recursos foram submetidos sobre a ausência do pólo ativo da ação e de poderes para a atuação da ex-procuradora do morto, que, sem esses poderes, contra-arrazoava os recursos.

Finalmente foi dado prazo para a habilitação, não cumprido. E dado novo prazo, que, afinal, contra a letra da lei, permitiu aos herdeiros de C. R. Almeida dar andamento ao processo (e manter o desejo de ficar com as terras) para obter minha condenação. Nesse martírio não lutei contra uma parte, mas contra duas, incluindo a que devia ser arbitral.
Voltar a ela, de novo? Mas com que crença? Quando, quase 20 anos atrás, me apresentei voluntariamente em cartório, sem esperar pela citação do oficial de justiça (gesto que causou perplexidade no fórum, mas que repeti outras vezes) para me defender da primeira das 33 ações sucessivamente propostas contra mim (19 delas pelos donos do maior conglomerado de comunicação da Amazônia, afiliado à Rede Globo de Televisão), eu acreditava na justiça do meu Estado.

Continuo a crer em muitos dos seus integrantes. Mas não na estrutura de poder que nela funciona, conivente com a espoliação do patrimônio público por particulares como o voraz pirata fundiário Cecílio do Rego Almeida.

Por isso, decidi não mais recorrer. Se fui submetido a um processo político, que visa me destruir, como personagem incômodo para esses bandidos de toga e as quadrilhas de assalto ao bem coletivo do Pará, vou reagir a partir de agora politicamente, nos corretos limites da verdade e da prova dos fatos, que sempre nortearam meu jornalismo em quase meio século de existência.

Declaro nesta nota suspeito o Tribunal de Justiça do Estado do Pará, que não tem condições de me proporcionar o devido processo legal, com o contraditório e a ampla defesa, que a Constituição do Brasil me confere, e decide a revelia e contra os fatos.

Se o tribunal quer minha cabeça, ofereço-a não para que a jogue fora, mas para que, a partir dela, as pessoas de bem reajam a esse cancro que há muitos anos vem minando a confiabilidade, a eficácia e a honorabilidade das instituições públicas no Pará e na Amazônia.

O efeito dessa decisão é que, finalmente, para regozijo dos meus perseguidores, deixarei de ser réu primário. Num país em que fichas de pessoas se tornam imundas pelo assalto aos cofres do erário, mas são limpas a muito poder e dinheiro, serei ficha suja por defender o que temos de mais valioso em nosso país e em nossa região.

Como já há outra ação cível – também de indenização – em fase de execução, a perda da primariedade me causará imensos transtornos. Mas, como no poema hindu, se alguém tem que queimar para que se rompam as chamas, que eu me queime.

Não pretendo o papel de herói (pobre do país que precisa dele, disse Bertolt Brecht pela boca de Galileu Galilei). Sou apenas um jornalista. Por isso, preciso, mais do que nunca, do apoio das pessoas de bem. Primeiro para divulgar essas iniqüidades, que cerceiam o livre direito de informar e ser informado, facilitando o trabalho dos que manipulam a opinião pública conforme seus interesses escusos.

Em segundo lugar, para arcar com o custo da indenização. Infelizmente, no Pará, chamar o grileiro de grileiro é crime, passível de punição. Se o guardião da lei é conivente, temos que apelar para o samba no qual Chico Buarque grita: chame o ladrão, chame o ladrão.

Quem quiser me ajudar pode depositar qualquer quantia na conta 22.108-2 da agência 3024-4 do Banco do Brasil, em nome do meu querido irmão Pedro Carlos de Faria Pinto, que é administrador de empresas e fiscal tributário, e assim administrará esse fundo. Essa conta estava em vias de fechamento, mas agora servirá para que se arque com esse constrangedor ônus de indenizar quem nos pilha e nos empobrece, graças à justiça.

Farei outros comunicados conforme as necessidades da campanha que ora se inicia. Espero contar com sugestões, opiniões e avaliações de todos que a ela se incorporarem. Convido-os a esta tarefa difícil e desgastante de não se acomodar na busca de um mundo melhor para todos nós.


Belém (PA), 14 de fevereiro de 2012      

LÚCIO FLÁVIO PINTO
Editor do Jornal Pessoal

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012



AO LEITOR, 
Por LÚCIO FLÁVIO PINTO


O Grileiro vencerá?

Como já é do conhecimento público, em 1999 escrevi uma matéria no meu Jornal Pessoal denunciando a grilagem de terras praticada pelo empresário Cecílio do Rego Almeida, dono da Construtora C. R. Almeida, uma das maiores empreiteiras do país, com sede em Curitiba, no Paraná. Embora nascido em Óbidos, no Pará, Cecílio se estabeleceu 40 anos antes no Paraná. Fez fortuna com o uso de métodos truculentos. Nada era obstáculo para a sua vontade.
Sem qualquer inibição, ele recorreu a vários ardis para se apropriar de quase cinco milhões de hectares de terras no rico vale do rio Xingu, no Pará, onde ainda subsiste a maior floresta nativa do Estado, na margem direita do rio Amazonas, além de minérios e outros recursos naturais. Onde também está sendo construída a hidrelétrica de Belo Monte, para ser a maior do país e a terceira do mundo.
Os 5 milhões de hectares já constituem território bastante para abrigar um país, mas a ambição podia levar o empresário a se apossar de área ainda maior, de 7 milhões de hectares, o equivalente a 8% de todo o Pará, o segundo maior Estado da federação brasileira. Se fosse um Estado, a “Ceciliolândia” seria o 21º maior do Brasil.
Em 1996, na condição de cidadão, atendi a um chamado do advogado Carlos Lamarão Corrêa, diretor do Departamento Jurídico do Iterpa (Instituto de Terras do Pará), e o ajudei a preparar uma ação de anulação e cancelamento dos registros das terras usurpadas por C. R. Almeida, com a cumplicidade da titular do cartório de registro de imóveis de Altamira e a ajuda de advogados inescrupulosos. A ação foi recebida pelo juiz da comarca, Torquato de Alencar, e feita a averbação da advertência de que aquelas terras não podiam ser comercializadas, por estarem sub-judice, passíveis de nulidade.
Os herdeiros do grileiro podem continuar na posse e no usufruto da pilhagem, apesar da decisão, porque a grilagem recebeu decisão favorável dos desembargadores João Alberto Paiva e Maria do Céu Cabral Duarte, do Tribunal de Justiça do Estado. Deve-se salientar que essas foram as únicas decisões favoráveis ao grileiro nas instâncias oficiais, que reformaram a deliberação do juiz de Altamira.
Com o acúmulo de informações sobre o estelionato fundiário, os órgãos públicos ligados à questão foram se manifestando e tomando iniciativas para evitar que o golpe se consumasse. A Polícia Federal comprovou a fraude e só não prendeu o empresário porque ele já tinha mais de 70 anos. O próprio poder judiciário estadual, que perdeu a jurisdição sobre o caso, deslocado para a competência da justiça federal, a partir daí, impulsionado pelo Ministério Público Federal, tomando rumo contrário ao pretendido pelo grileiro, interveio no cartório Moreira, de Altamira, e demitiu todos os serventuários que ali trabalhavam, inclusive a escrivã titular, Eugênia de Freitas, por justa causa.
Carlos Lamarão, um repórter da revista Veja (que chegou a ser mantido em cárcere privado pelo empresário e ameaçado fisicamente) e o vereador Eduardo Modesto, de Altamira, processados na comarca de São Paulo por Cecílio Almeida, foram absolvidos pela justiça paulistana. O juiz observou que essas pessoas, ao invés de serem punidas, mereciam era homenagens por estarem defendendo o patrimônio público, ameaçado de passar ilicitamente para as mãos de um particular.
De toda história, eu acabei sendo o único punido. A ação do empreiteiro contra mim, como as demais, foi proposta no foro de São Paulo. Seus advogados sabiam muito bem que a sede da ação era Belém, onde o Jornal Pessoal circula. Eles queriam deslocar a causa por saberem das minhas dificuldades para manter um representante na capital paulista. A juíza que recebeu o processo, a meu pedido, desaforou a ação para Belém, como tinha que ser. Hoje, revendo o que passei nestes 11 anos de jurisdição da justiça do Pará, tenho que lamentar a mala suerte de não ter ficado mesmo em São Paulo, com todas as dificuldades que tivesse para acompanhar a tramitação do feito.
A justiça de São Paulo foi muito mais atenta à defesa da verdade e da integridade de um bem público ameaçada por um autêntico “pirata fundiário”, do que a justiça do Pará, formada por homens públicos, que deviam zelar pela integridade do patrimônio do Estado contra os aventureiros inescrupulosos e vorazes. Esta expressão, “pirata fundiário”, C. R. Almeida considerou ofensiva à sua dignidade moral e as duas instâncias da justiça paraense sacramentaram como crime, passível de indenização, conforme pediu o controverso empreiteiro.
Mesmo tendo provado tudo que afirmei na primeira matéria e nas que a seguiram, diante da gravidade do tema, fui condenado, graças a outro ardil, montado para que um juiz substituto, em interinidade de fim de semana, pela ausência circunstancial da titular da 1ª vara cível de Belém, sem as condições processuais para sentenciar uma ação de 400 páginas,
me condenasse a pagar ao grileiro indenização de 8 mil reais (em valores de então, a serem dramaticamente majorados até a execução da sentença), por ofensa moral.
A sentença foi confirmada pelo tribunal, embora a ação tenha sido abandonada desde que Cecílio do Rego Almeida morreu, em agosto de 2008; mesmo que seus sucessores ou herdeiros não se tenham habilitado; mesmo que o advogado, que continuou a atuar nos autos, não dispusesse de um novo contrato para legalizar sua função; mesmo que o tribunal, várias vezes alertado por mim sobre a deserção, tenha ignorado minhas petições; mesmo que, obrigado a extinguir a minha punibilidade, arquivando o processo, haja finalmente aberto prazo para a habilitação da parte ativa, que ganhou novo prazo depois de perder o primeiro; mesmo que a relatora, confrontada com a argüição da sua suspeição, que suscitei, diante de sua gravosa parcialidade, tenha simplesmente dado um “embargo de gaveta” ao pedido, que lhe incumbia responder de imediato, aceitando-o ou o rejeitando, suspendendo o processo e afastando-se da causa; mesmo que tudo que aleguei ou requeri tenha sido negado, para, ao final, a condenação ser confirmada, num escabroso crime político perpetrado pela maioria dos desembargadores do Tribunal de Justiça do Pará que atuaram no meu caso, certamente inconformados com críticas e denúncias que tenho feito sobre o TJE nos últimos anos, nenhuma delas desmentida, a maioria delas também completamente ignorada pelos magistrados citados nos artigos. Ao invés de cumprir as obrigações de sua função pública, eles preferem apostar na omissão e na desmemoria da população. E no acerto de contas com o jornalista incômodo.
Depois de enfrentar todas as dificuldades possíveis, meus recursos finalmente subiram a Brasília em dezembro do ano passado. O recurso especial seguiu para o presidente do Superior Tribunal de Justiça, ministro Ari Pargendler, graças ao agravo de instrumento que impetrei (o Tribunal do Pará rejeitou o primeiro agravo; sobre o segundo já nada mais podia fazer).
Mas o presidente do STJ, em despacho deste dia 7, disponibilizado no dia 10 e a ser publicado no Diário da Justiça do dia 13, negou seguimento ao recurso especial. Alegou erros formais na formação do agravo: “falta cópia do inteiro teor do acórdão recorrido, do inteiro teor do acórdão proferido nos embargos de declaração e do comprovante do pagamento das custas do recurso especial e do porte de retorno e remessa dos autos”.
Recentemente, a justiça brasileira impôs novas regras para o recebimento de agravos, exigindo dos recorrentes muita atenção na formação do instrumento, tantos são os documentos cobrados e as suas características. Podem funcionar como uma armadilha fatal, quando não são atendidas as normas formais do preparo.
A falta de todos os documentos apontada pelo presidente do STJ me causou enorme surpresa. Participei pessoalmente da reunião dos documentos e do pagamento das despesas necessárias, junto com minha advogada, que é também minha prima e atua na questão gratuitamente (ou pró-bono, como preferem os profissionais). Não tenho dinheiro para sustentar uma representação desse porte. Muito menos para arcar com a indenização que me foi imputada, mais uma, na sucessão de processos abertos contra mim pelos que, sendo poderosos, pretendem me calar, por incomodá-los ou prejudicar seus interesses, frequentemente alimentados pelo saque ao patrimônio público.
Desde 1992 já fui processado 33 vezes. Nenhum dos autores dessas ações teve interesse em me mandar uma carta, no exercício de seu legítimo direito de defesa. O Jornal Pessoal publica todas as cartas que lhe são enviadas, mesmo as ofensivas, na íntegra. Também não publicaram matérias contestando as minhas ou, por qualquer via, estabelecendo um debate público, por serem públicos todos os temas por mim abordados. Foram diretamente à justiça, certos de contarem com a cumplicidade daquele tipo de toga que a valente ministra Eliana Calmon, Corregedora Nacional de Justiça, disse esconderem bandidos, para me atar a essa rocha de suplícios, que, às vezes, me faz sentir no papel de um Prometeu amazônico.
Não por coincidência, fui processado pelos desembargadores João Alberto Paiva e Maria do Céu Duarte, o primeiro tendo como seu advogado um ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral, à frente de uma das mais conceituadas bancas jurídicas do Distrito Federal. O ex-ministro José Eduardo Alckmin, que também advogava para a C. R. Almeida, veio a Belém para participar de uma audiência que durou cinco minutos. Mas impressionou pela sua presença.
O madeireiro Wandeir dos Reis Costa também me processou. Ele funcionou como fiel depositário de milhares de árvores extraídas ilegalmente da Terra do Meio, que o Ibama apreendeu em Altamira. Embora se declarasse pobre, ele se ofereceu para serrar, embalar e estocar a madeira enquanto não fosse decidido o seu destino. Destino, aliás, antecipado pelo extravio de toras mantidas em confinamento no próprio rio Xingu. Uma sórdida história de mais um ato de pirataria aos recursos naturais da Amazônia, bem disfarçado.
Apesar de todas essas ações e do martírio que elas criaram na minha vida nestes últimos 20 anos, mantenho meu compromisso com a verdade, com o interesse público e com uma melhor sorte para a querida Amazônia, onde nasci. Não gostaria que meus filhos e netos (e todos os filhos e netos do Brasil) se deparassem com espetáculos tão degradantes, como ver milhares de toras de madeira de lei, incluindo o mogno, ameaçado de ser extinto nas florestas nativas amazônicas, nas quais era abundante, sendo arrastadas em jangadas pelos rios por piratas fundiários, como o extinto Cecílio do Rego Almeida. Depois de ter sofrido todo tipo de violência, inclusive a agressão física, sei o que me espera. Mas não desistirei de fazer aquilo que me compete: jornalismo. Algo que os poderes, sobretudo o judiciário do Pará, querem ver extinto, se não puder ser domesticado conforme os interesses dos donos da voz pública.
Vamos tentar examinar o processo e recorrer, sabendo das nossas dificuldades para funcionar na justiça superior de Brasília, onde, como regra, minhas causas sempre foram vencedoras até aqui, mesmo sem representação legal junto aos tribunais do Distrito Federal.
Decidi escrever esta nota não para pressionar alguém nem para extrapolar dos meus direitos. Decisão judicial cumpre-se ou dela se recorre. Se tantos erros formais foram realmente cometidos no preparo do agravo, o que me surpreendeu e chocou, paciência: vou pagar por um erro que impedirá o julgador de apreciar todo meu extenso e profundo direito, demonstrado à exaustão nas centenas de páginas dos autos do processo. Terei que ir atrás da solidariedade dos meus leitores e dos que me apoiam para enfrentar mais um momento difícil na minha carreira de jornalista, com quase meio século de duração. Espero contar com a atenção das pessoas que ainda não desistiram de se empenhar por um país decente.

  Belém (PA), 11 de fevereiro de 2012

LÚCIO FLÁVIO PINTO
  Editor do Jornal Pessoal

domingo, 10 de outubro de 2010

Joel Yawanawa em Londres

Joel está estudando inglês há menos de três meses em Londres, seu vocabulário é pequeno e isso é muito natural pois é a primeira vez que ele estuda uma língua estrangeira. Seus professores assim que minha família e nossos amigos estão impressionados com a maneira rápida que Joel absorve a língua de Shakespeare. Ele é muito inteligente e já consegue se comunicar, tranquilamente e expressa-se com fluência.

Esse VIDEO faz parte de um Filme Documentário que estou fazendo com Joel,
algumas das imagens que eu usei nele foram "emprestadas" de um grande arquivo de outro documentário sobre os YAWANAWAS, que filmei entre Julho e Novembro de 2009, documentário esse que fiz em Parceria com Joaquim Tashka Yawanawa.
A mensagem que Joel quis passar aqui nesse Video é simples e espontânea- esse Video foi realizado para ser apresentado num encontro da sede central da AVEDA em Covent Garden, em Londres que ocorreu dia 8 de outubro passado.
Joel gostou do resultado, me pediu que eu colocasse a tradução em legenda porque quis que sua família visse o video, pela Internet, pois alguns deles estão em Tarauacá, então publiquei pelo YOUTUBE.
Joel é convidado de minha família, está hospedado na nossa casa. Ele tem um sorriso radiate, que ilumina nossos dias (frios e cinzentos) de Londres.
Ele está indo embora de volta para Tarauacá em poucas semanas.
Vai deixar SAUDADES.


domingo, 31 de maio de 2009

Viagem de Volta.


Há quase 6 anos sem vir ao Brasil. Da última vez que estive aqui, enterrei meu pai, desde então evitei voltar. Mas sabia que cedo ou tarde ia ter que encarar a realidade e a ausência que papai ia fazer.
Dessa vez trouxe minhas meninas e escolhi o Rio de Janeiro para nossa chegada. Achei importante mostrar para as duas o “cartão-postal”, a referencia em potencial do Brasil no exterior. Por causa disso fizemos tudo o que um “turista” faz: Pão de açúcar, Cristo Redentor, Ipanema, Copacabana e Samba.
Vim para o Brasil também com um objetivo: colocar em prática meus projetos acumulados há 10 anos. Curta e longa metragem, manuscritos de contos, histórias para crianças e documentários.
Planejei essa viagem e desejei que ela fosse diferente das outras que fiz no passado. E tem sido. Ainda bem.

sábado, 9 de maio de 2009

OCUPAÇÃO da EX Sede do MUSEU DO INDIO, Rio de Janeiro




INVASÃO de CASARÃO no Rio de Janeiro, ex Museu do Indio



Um lindo casarão, em ruínas, perto do Estádio MARACANÃ, no Rio de Janeiro.
Membros de diversas Tribos Indígenas estão se reversando, na ocupação dessa casa que foi no passado, há 30 anos- o MUSEU DO ÍNDIO.
Fui lá e conversei com alguns deles, da tribo PATAXÓ.
O Artista Arakury Pataxó fez uma tatuagem no meu braço.
Eles estão no casarão há 3 anos, vivendo em precárias condições e eles pedem que não derrubem o casarão- mas que o reformem e o transformem numa UNIVERSIDADE para o povo INDÍGENA do BRASIL.
Tenho desejo de fazer um documentário. Estou aguardando a aprovação deles.
Com ansiedade.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Foto feita pela minha amiga talentosa (Diretora Roteirista e Poetisa) MARIA MAIA

Um pouquinho de AMOR na nossa vida.
Silvana e Oona (Quando a Maya tinha apenas dois meses de idade em 2001), em Londres, na ocasião de um jantar na French Chelsea Brasserie, com Maria Maia, Samuel, Martin, Oona (Maya) e eu.
Acho essa foto linda pois Maria soube captar TUDO nela e alguma coisa a mais,
artimanha que somente os poetas são capazes...

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

"CHICO MENDES" o PROJETO



Meu livro de estudo sobre o "ABC do SERINGUEIRO"...


Ano passado, num ‘passado’ não tão distante de hoje, foi comemorado 20 anos de morte (assassinato) de Chico Mendes, em Xapuri. Estive acompanhando, pela Internet, as “comemorações” que foram divulgadas tal recebimentos de prêmios, entrevistas com pessoas que conheceram Chico Mendes, pessoas com quem trabalhou, amigos, família e até entrevistas e declarações filmadas do mandante do assassinato, Darly Alves, (vivinho) da Silva, para o “Fantástico”, da Rede Globo de Televisão. Decidi, depois de muito pensar- em escrever esse texto-, hoje. Sim, porque eu havia resistido em fazê-lo, mas sinto meu estômago revirar, toda vez que eu ouço falar ou leio algo à respeito de “Chico Mendes”. Por causa dessa estranha emoção- mistura de náusea e raiva- decidir escrever. Porque (acho) essa minha reação deve ser uma emoção “sã”, se não, acredito, não me sentiria assim, com uma dor aguda e constante- como se alguém tivesse me dado um sôco, na boca do estômago.

Em dezembro de 1988 estava em Richarville, no campo, a alguns quilômetros de Paris. Na TV passava o jornal, vi imagens de mato, gente caminhando como numa procissão, o jornalista falava da morte do ambientalista Chico Mendes, no Acre. Tomei um susto. Na minha época, nem os brasileiros sabiam direito situar o Acre no mapa do Brasil (!) e prestei atenção ao que diziam. Algumas semanas depois do jornal, programaram um documentário sobre CHICO MENDES, na TV Francesa.
Fiquei então sabendo QUEM era Chico Mendes e QUAL tinha sido sua missão. Durante o desenrolar do programa, eu enxugava as lágrimas, comovida com a história trágica do ex-seringueiro e sindicalista, mas sobretudo eu chorava com saudades e com tristeza de ver que os seringais do Acre estavam se transformando em pasto de boi, dos “paulistas”. Sentado ao meu lado, Gilles, meu ex- marido (que é cineasta francês), assistia o MESMO programa que eu- mas (definitivamente) não víamos a mesma coisa. Ele me consolava, de vez em quando, me dando papel para enxugar as lágrimas e assoar o nariz e dizia: “Dá um filme fantástico! Um “Western”, tem tudo ai. Um grande conflito, um herói, um vilão, bois, cowboys, bandidos, fazendas, o prefeito, o governador, os políticos, uma “causa”...Só falta a Mocinha.”. Gilles olhou pra mim e continuou: “Com um bom roteiro, você pode fazer a ‘mocinha’ do filme! E ninguém vai dizer que você não é o PAPEL. Você é ACREANA!”

Gilles jamais largava seu trabalho. Respirava, dormia e acordava- sempre conectado- com CINEMA, a paixão de sua vida.
E dessa vez ele tinha razão.
Dois anos mais tarde, em 1991, o produtor de cinema inglês, Sir David Puttnan e eu tomávamos café da manhã, no café de um elegante hotel, situado numa rua transversal à Avenida Champs Elysées, em Paris, onde ele estava hospedado, com sua esposa.
Quis me conhecer pessoalmente, após ter visto fotos minhas e um vídeo no qual eu respondia à uma entrevista feita, algumas semanas antes, com a diretora de elenco, Priscilla John.

Sir David Puttnan estava em fase de pré-produção do longa metragem, baseado na vida de Chico Mendes quando nos encontramos. Conversamos sobre minha vida, minha infância no Acre, meu percurso até Paris onde eu morava e era atriz profissional, quis saber sobre minha família, meus pais e irmãos e a razão pela qual deixei o Acre e o Brasil.
Depois ele respondeu às minhas perguntas- aonde o filme ia ser rodado (em Costa Rica) e quem ia fazer o “papel” de Chico ( Andy Garcia). Ele quis saber o que eu pensava disso. Eu- claro- que perguntei porque não ia ser filmado no Brasil, com brasileiros. Ele me disse que “Era muito perigoso”. Findei concordando com ele e lhe disse que o “importante era a credibilidade, de que maneira o diretor ia desenvolver o PROJETO”.

No final do nosso encontro, depois de um momento muito descontraído, Sir David Puttnan me disse que havia ficado “encantado” em me conhecer (era recíproco) e ele queria saber se eu aceitava entrar na AVENTURA do filme, fazendo o “papel” de ILZAMAR. Eu tomei um susto porque esse tipo de conversa só se é tratado entre uma atriz e um produtor SE o produtor realmente acha que aquela atriz É o “personagem”, também SE o diretor estivesse de acordo. Eu disse que adoraria fazer parte do projeto mas perguntei (sendo casada com diretor SABIA do que estava falando) se o diretor estava de acordo que eu fosse “Ilzamar”. Ele me respondeu: “Eu tenho a palavra final, EU decido”.

Menos de um mês depois eu estava em Londres, pronta para fazer testes e mais testes, para o filme “Chico”.
Visitei Pinewood, onde estava instalado o escritório da produção onde vi as fotos e a evolução do projeto. Estavam construindo Xapurí, nas Selvas de Costa Rica. Encontrei-me com o Diretor do filme, Chris Menges.

Antes dessa viagem, em Paris, enquanto me preparava para os testes do filme, recebi, de Londres, páginas do roteiro com cenas que eu devia interpretar e vários livros e fitas com documentários filmados pelo cinegrafista inglês, Adrien Cowell.
Cowell havia viajado por longos períodos, desde 1950, no Brasil fazendo documentários para a televisão Inglesa e filmou tribos de Índios e também Chico Mendes. (The Last of the Hiding Tribes, The Decade of Destruction, The Killing of Chico Mendes).
Cowell usava uma equipe de brasileiros para fazer seus filmes, mas Chris Menges havia sido seu cinegrafista, em vários desses projetos e o filme seria uma adaptação baseada na vivencia de Andrien Cowell com Chico Mendes, que resultou também num livro.

Consumi os livros, como se diz- num tapa.
Fiquei impressionada com o material, pois vivia na França (fazia cinco anos, nessa época) e longe do Acre desde 1975, quando papai vendeu nosso seringal e fomos nos estabelecer em Belém. Isso quer dizer que fazia então 16 anos que eu havia deixado o Acre e desconhecia a “realidade” local. No início pensei- porque vivia na Europa-, mas eu telefonei para minha família e alguns amigos no Brasil, muitos deles só tomaram conhecimento de quem era Chico Mendes e do seu trabalho, do que se passava no Acre, depois de sua morte. Impressionante que eu na França (recebendo material feito e editado pelos Ingleses) agora sabia mais da QUESTÃO do Chico Mendes e sua luta, que muitos brasileiros.


O “sistema” do SERINGAL me era muito familiar, afinal meus pais haviam sido donos de seringais. Papai havia herdado os seringais Mercês e São João, em Sena Madureira. Meus avós haviam sido pioneiros no Acre. Meu bisavô, pai de minha avó Emília (mãe de papai), Agostinho Escócio Vieira Drummond havia trabalhado e lutado ao lado de Plácido de Castro, que mediu São João e lhe conferiu título de posse. Nasci e cresci vendo fotos, ouvindo a história da minha família. Fernando e eu os mais novos de uma família de 10 irmãos, nascemos em Rio Branco mas fomos criados indo e vindo ao seringal Mercês.Cézar e Elzira nasceram na Copaíba, sede do seringal e Zuleide, a nossa irmã mais velha, havia nascido numa colocação que se chamava “Maloca”, evidente a origem do nome. Mamãe e papai enterraram Maria Emília nossa irmãzinha de 4 anos, na sombra de uma mangueira da Copaíba, o mesmo destino, um bebê que não teve tempo de ser batizado - mas que papai e mamãe chamaram de João Escócio. Zéles nosso irmão mais velho nasceu no Pará, estado natal de nossa mãe.

E a vida no seringal com seringueiros (os fregueses de papai), brincando com filhos de seringueiros eu sabia de cor e salteado, o seringal era o lugar onde eu passava minhas férias, onde eu havia vivido e convivido, toda minha infância e início de adolescência. Mas dessa vez, graças ao Sir David Puttnan, o PRISMA- a partir do qual eu via o SERINGAL ia mudar. Eu ia ter que APRENDER a olhar, a partir do ponto de vista do SERINGUEIRO.


O trabalho de atriz no qual me lancei, durante esse período de estudo e pesquisa sobre Chico Mendes (e Ilzamar) foi um PESADELO para mim, porque pela primeira vez na minha vida eu tive que me INVESTIR – intimamente- num trabalho (de ficção) mas que parecia muito próximo à pessoa que eu SOU, na vida real.
Teoricamente, o trabalho do ator é de se ‘alimentar’ de informações e (pessoas) de maneira que ele/ela possa elaborar sua maneira de interpretar, bem também depende da sua formação. Jamais segui academias, conservatórios, comecei a trabalhar no cinema somente usando minha INTUIÇÃO.

Fiz alguns cursos com o professor Jack Waltzer, da Actor’s Studio de Nova York. Ele me ensinou a usar do meu instinto, me empurrou a me “jogar” em cena, usando minha vivência e personalidade , para ‘construir’ o personagem, tal o METODO (Stanislavsky System). Jack Waltzer sempre (gritava) me dizendo para eu ter fé no meu instinto e não “intelectualizar” minha maneira de atuar. Mas eu não estava preocupada com a maneira com a qual eu ia “interpretar” Ilzamar.

CHICO MENDES para mim era um ser IRREAL e nessa altura da história do Brasil ele havia subtamente se transformado em um HERÓI NACIONAL.
Então ele se tornava para mim, ainda mais inacessível, “etéreo”...
Ilzamar devia ser certamente uma cabocla da Amazônia, talvez igual à mim, minha mãe ou minhas irmãs, afinal SOMOS da mesma região, com muitas características parecidas, entre elas, físicas, mas eu estava ‘estudando’ uma Ilzamar, que havia sido a ESPOSA de Chico Mendes e mãe de seus filhos, uma moça que parecia ter...
“saído de uma tela de Paul Gauguin”, como havia me dito Sir David Puttnan, Chris Menges e estava assim escrito nos livros.
Silvana a atriz tinha que elaborar essa figura exótica, vindo da Polinésia, mas nascida no Acre. Em Xapuri.

E tentava “não intelectualizar”, mas estudar a vida de Chico Mendes foi para mim uma REVELAÇÃO, também um enorme CHOQUE.
Tive que aprender a me despojar de TUDO o que eu havia aprendido/que haviam me ensinado, desde menina: Crenças, atitudes, pensamentos, pré-conceitos, referencias, ensinamentos, “filosofia”, romantismo, enfim, tive que separar – literalmente- tudo o que eu CONHECIA, minha VIDA enfim, até então.

Precisava ME IMAGINAR numa outra vida,
que era ou tinha sido ou poderia ter sido- a vida de um SERINGUEIRO (A) naqueles dias, no Acre, para poder me sentir capaz de olhar/compreender a VERDADEIRA MENSAGEM que- acredito- Chico Mendes deixou.

Para tentar minha chance na tela (sendo “Ilzamar”) tive que DESCOBRIR o que (teoricamente) uma jovem mulher (bonita), inexperiente e “selvagem” estava vivendo (interiormente) durante os anos em que seu marido pregava e atuava como Serigueiro, Sindicalista, Ativista e “Ambientalista”- que era um termo novo nessa época, que não havia uso na linguagem cotidiana.

A primeira vez que encontrei Chris Menges, o diretor do filme, foi na casa de Priscilla John, a diretora de elenco do filme, em Londres.
Chris Menges tinha chegado do País de Gales para tomar o café da manhã comigo e nosso encontro tinha como objetivo, aprender a nos entrosar.
É um processo natural entre o diretor e uma atriz, no decorrer de um projeto de filme e ele ia também escolher a roupa que eu devia usar para os testes. Ainda em Paris, me preocupei em comprar farinha (de mandioca/macaxeira), numa importadora.
Não era do Brasil, nem do Acre, vinha da África (cassava) e preparei para ele comer uma farofa com carne (enlatada), como a gente fazia na época em que morávamos no seringal. Misturei ovos, comemos acompanhado com café preto.

Chris Menges é um homem culto, certamente (de esquerda), sensível e um brilhante diretor e cinegrafista. Antes de encontrá-lo, me preocupei em ver os filmes que ele havia trabalhado e dirigido. SENTI- foi uma intuição jamais soube a verdade,
desde o primeiro minuto que me viu- que eu não era a atriz de seus sonhos para fazer “Ilzamar” (por ser FILHA de Seringalistas- não de Seringueiros).

Mas Chris Menges e eu passamos um bom momento juntos, lhe mostrei um álbum com fotos da minha família, fotos recentes daquela época, que eu havia tirado no Acre, na minha última viagem. Depois de longas horas de conversa sobre a vida no seringal, uma série de perguntas do que eu achava e pensava sobre Chico Mendes- ele me perguntou assim: “Ilzamar, quero dizer- Silvana, você acha que se casar com Chico Mendes – poderia se dizer... que teria sido para uma JOVEM- como ‘descolar’, ‘pescar’ um peixão?”

Eu achei muito engraçado, pois na minha cabeça vi a JOVEM- seringueira (Ilzamar), apaixonada por um homem mais velho que ela, barrigudinho, de bigode, talvez “brilhantina” no cabelo (como era costume do seringal)...
Imaginei que ERA POSSÍVEL. Sim.
Porque não existe explicação para o AMOR.
A gente se apaixona ou acha que está apaixonada, a vida da mata, do isolamento, da “solidão”, faz o resto.
Imaginei que Chico Mendes- por causa de sua personalidade- devia ser um homem especial, carismático e SIM. Era um “peixão”.
Nós rimos.

Chris Menges me testou de todo o jeito.
Ele me provocava e eu sentia que ele queria me “encurralar”, com perguntas. Mas eu estava calma e respondia com honestidade.
Jamais neguei que meus pais eram/foram SERINGALISTAS.
Jamais tentei esconder que toda minha família possuía terras, seringais, no Acre.
Teve um momento em que ele me disse assim:
“Se você fosse filha de Seringueira, não estaria morando em Paris, não teria tido essa chance, não se sente culpada?”

Sabia que ia me provocar o máximo, então eu tive que responder meu pensamento.
NÃO acredito que eu tive sorte em ser FILHA de Seringalista, para poder ir morar em Paris, na Europa.
Eu acho que eu tive sorte sim, mas eu fui atrás da minha SORTE, trabalhei, lutei.
Tive que lhe explicar como vivi e de que maneira cheguei até a Europa. O fato de ter tido a chance de ESTUDAR, sim, foi primordial nesse percurso mas quantas pessoas que estudaram- e são formadas- não vão até o FINAL, na luta por seus ideais?

Me lembro que ele disse algo, me comparando com uma “burguesa”. Me lembrei que Karl Marx era filho de “burgueses”. Usei isso como argumento, embora eu pessoalmente não estivesse atrás de fazer nenhuma “revolução”, na minha vida, muito menos de ter “seguidores”, em massa.

No estúdio, fiz os testes com um ator inglês, branco, careca e barrigudinho. Fizemos várias cenas juntos, ele fez o papel de Chico Mendes em algumas delas e outra ele fez Darly.

Voltei para Paris, onde eu morava na época. Durante alguns meses Sir David Puttnan me pediu que ESPERASSE respostas sobre o desenvolver do PROJETO que não estava “confirmado”. Assinei contrato para não falar –absolutamente nada- sobre o PROJETO CHICO MENDES, jamais dar entrevistas ou mostrar meus vídeos dos testes que fiz em Londres. Tinha a diretora de elenco ao telefone que me dizia o que estava “rolando".

Nesse período de ESPERA viajei para o Brasil. Fui à Belém e senti uma NECESSIDADE de voltar ao Acre.
De Rio Branco peguei um ônibus até Xapuri.
Me hospedei num pequeno hotel, onde dormi uma noite. No dia seguinte, depois do café, fui até a casa de ILZAMAR MENDES.

Me apresentei (mas NÃO PUDE DIZER NADA em relação ao filme), o que me deixava o tempo todo- me sentindo “culpada” e inconfortável, por causa da situação.
Foi uma TORTURA para mim.
Tinha vontade- tive o impulso- várias vezes em lhe contar tudo, sobretudo porque ela me recebeu muito gentilmente. Alta, sorriso doce, num rosto cheio de ternura.
Muito delicada e educada, Ilzamar aceitou meu pedido que lhe filmasse, assim que seus filhos e seu marido.

Foi para mim uma GRANDE EMOÇÃO e pela primeira vez senti- a REALIDADE.
Porque até então, ILZAMAR e CHICO MENDES, para mim eram um PROJETO DE FILME. Ficção.

(CONTINUA...)