domingo, 10 de outubro de 2010

Joel Yawanawa em Londres

Joel está estudando inglês há menos de três meses em Londres, seu vocabulário é pequeno e isso é muito natural pois é a primeira vez que ele estuda uma língua estrangeira. Seus professores assim que minha família e nossos amigos estão impressionados com a maneira rápida que Joel absorve a língua de Shakespeare. Ele é muito inteligente e já consegue se comunicar, tranquilamente e expressa-se com fluência.

Esse VIDEO faz parte de um Filme Documentário que estou fazendo com Joel,
algumas das imagens que eu usei nele foram "emprestadas" de um grande arquivo de outro documentário sobre os YAWANAWAS, que filmei entre Julho e Novembro de 2009, documentário esse que fiz em Parceria com Joaquim Tashka Yawanawa.
A mensagem que Joel quis passar aqui nesse Video é simples e espontânea- esse Video foi realizado para ser apresentado num encontro da sede central da AVEDA em Covent Garden, em Londres que ocorreu dia 8 de outubro passado.
Joel gostou do resultado, me pediu que eu colocasse a tradução em legenda porque quis que sua família visse o video, pela Internet, pois alguns deles estão em Tarauacá, então publiquei pelo YOUTUBE.
Joel é convidado de minha família, está hospedado na nossa casa. Ele tem um sorriso radiate, que ilumina nossos dias (frios e cinzentos) de Londres.
Ele está indo embora de volta para Tarauacá em poucas semanas.
Vai deixar SAUDADES.


domingo, 31 de maio de 2009

Viagem de Volta.


Há quase 6 anos sem vir ao Brasil. Da última vez que estive aqui, enterrei meu pai, desde então evitei voltar. Mas sabia que cedo ou tarde ia ter que encarar a realidade e a ausência que papai ia fazer.
Dessa vez trouxe minhas meninas e escolhi o Rio de Janeiro para nossa chegada. Achei importante mostrar para as duas o “cartão-postal”, a referencia em potencial do Brasil no exterior. Por causa disso fizemos tudo o que um “turista” faz: Pão de açúcar, Cristo Redentor, Ipanema, Copacabana e Samba.
Vim para o Brasil também com um objetivo: colocar em prática meus projetos acumulados há 10 anos. Curta e longa metragem, manuscritos de contos, histórias para crianças e documentários.
Planejei essa viagem e desejei que ela fosse diferente das outras que fiz no passado. E tem sido. Ainda bem.

sábado, 9 de maio de 2009

OCUPAÇÃO da EX Sede do MUSEU DO INDIO, Rio de Janeiro




INVASÃO de CASARÃO no Rio de Janeiro, ex Museu do Indio



Um lindo casarão, em ruínas, perto do Estádio MARACANÃ, no Rio de Janeiro.
Membros de diversas Tribos Indígenas estão se reversando, na ocupação dessa casa que foi no passado, há 30 anos- o MUSEU DO ÍNDIO.
Fui lá e conversei com alguns deles, da tribo PATAXÓ.
O Artista Arakury Pataxó fez uma tatuagem no meu braço.
Eles estão no casarão há 3 anos, vivendo em precárias condições e eles pedem que não derrubem o casarão- mas que o reformem e o transformem numa UNIVERSIDADE para o povo INDÍGENA do BRASIL.
Tenho desejo de fazer um documentário. Estou aguardando a aprovação deles.
Com ansiedade.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Foto feita pela minha amiga talentosa (Diretora Roteirista e Poetisa) MARIA MAIA

Um pouquinho de AMOR na nossa vida.
Silvana e Oona (Quando a Maya tinha apenas dois meses de idade em 2001), em Londres, na ocasião de um jantar na French Chelsea Brasserie, com Maria Maia, Samuel, Martin, Oona (Maya) e eu.
Acho essa foto linda pois Maria soube captar TUDO nela e alguma coisa a mais,
artimanha que somente os poetas são capazes...

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

"CHICO MENDES" o PROJETO



Meu livro de estudo sobre o "ABC do SERINGUEIRO"...


Ano passado, num ‘passado’ não tão distante de hoje, foi comemorado 20 anos de morte (assassinato) de Chico Mendes, em Xapuri. Estive acompanhando, pela Internet, as “comemorações” que foram divulgadas tal recebimentos de prêmios, entrevistas com pessoas que conheceram Chico Mendes, pessoas com quem trabalhou, amigos, família e até entrevistas e declarações filmadas do mandante do assassinato, Darly Alves, (vivinho) da Silva, para o “Fantástico”, da Rede Globo de Televisão. Decidi, depois de muito pensar- em escrever esse texto-, hoje. Sim, porque eu havia resistido em fazê-lo, mas sinto meu estômago revirar, toda vez que eu ouço falar ou leio algo à respeito de “Chico Mendes”. Por causa dessa estranha emoção- mistura de náusea e raiva- decidir escrever. Porque (acho) essa minha reação deve ser uma emoção “sã”, se não, acredito, não me sentiria assim, com uma dor aguda e constante- como se alguém tivesse me dado um sôco, na boca do estômago.

Em dezembro de 1988 estava em Richarville, no campo, a alguns quilômetros de Paris. Na TV passava o jornal, vi imagens de mato, gente caminhando como numa procissão, o jornalista falava da morte do ambientalista Chico Mendes, no Acre. Tomei um susto. Na minha época, nem os brasileiros sabiam direito situar o Acre no mapa do Brasil (!) e prestei atenção ao que diziam. Algumas semanas depois do jornal, programaram um documentário sobre CHICO MENDES, na TV Francesa.
Fiquei então sabendo QUEM era Chico Mendes e QUAL tinha sido sua missão. Durante o desenrolar do programa, eu enxugava as lágrimas, comovida com a história trágica do ex-seringueiro e sindicalista, mas sobretudo eu chorava com saudades e com tristeza de ver que os seringais do Acre estavam se transformando em pasto de boi, dos “paulistas”. Sentado ao meu lado, Gilles, meu ex- marido (que é cineasta francês), assistia o MESMO programa que eu- mas (definitivamente) não víamos a mesma coisa. Ele me consolava, de vez em quando, me dando papel para enxugar as lágrimas e assoar o nariz e dizia: “Dá um filme fantástico! Um “Western”, tem tudo ai. Um grande conflito, um herói, um vilão, bois, cowboys, bandidos, fazendas, o prefeito, o governador, os políticos, uma “causa”...Só falta a Mocinha.”. Gilles olhou pra mim e continuou: “Com um bom roteiro, você pode fazer a ‘mocinha’ do filme! E ninguém vai dizer que você não é o PAPEL. Você é ACREANA!”

Gilles jamais largava seu trabalho. Respirava, dormia e acordava- sempre conectado- com CINEMA, a paixão de sua vida.
E dessa vez ele tinha razão.
Dois anos mais tarde, em 1991, o produtor de cinema inglês, Sir David Puttnan e eu tomávamos café da manhã, no café de um elegante hotel, situado numa rua transversal à Avenida Champs Elysées, em Paris, onde ele estava hospedado, com sua esposa.
Quis me conhecer pessoalmente, após ter visto fotos minhas e um vídeo no qual eu respondia à uma entrevista feita, algumas semanas antes, com a diretora de elenco, Priscilla John.

Sir David Puttnan estava em fase de pré-produção do longa metragem, baseado na vida de Chico Mendes quando nos encontramos. Conversamos sobre minha vida, minha infância no Acre, meu percurso até Paris onde eu morava e era atriz profissional, quis saber sobre minha família, meus pais e irmãos e a razão pela qual deixei o Acre e o Brasil.
Depois ele respondeu às minhas perguntas- aonde o filme ia ser rodado (em Costa Rica) e quem ia fazer o “papel” de Chico ( Andy Garcia). Ele quis saber o que eu pensava disso. Eu- claro- que perguntei porque não ia ser filmado no Brasil, com brasileiros. Ele me disse que “Era muito perigoso”. Findei concordando com ele e lhe disse que o “importante era a credibilidade, de que maneira o diretor ia desenvolver o PROJETO”.

No final do nosso encontro, depois de um momento muito descontraído, Sir David Puttnan me disse que havia ficado “encantado” em me conhecer (era recíproco) e ele queria saber se eu aceitava entrar na AVENTURA do filme, fazendo o “papel” de ILZAMAR. Eu tomei um susto porque esse tipo de conversa só se é tratado entre uma atriz e um produtor SE o produtor realmente acha que aquela atriz É o “personagem”, também SE o diretor estivesse de acordo. Eu disse que adoraria fazer parte do projeto mas perguntei (sendo casada com diretor SABIA do que estava falando) se o diretor estava de acordo que eu fosse “Ilzamar”. Ele me respondeu: “Eu tenho a palavra final, EU decido”.

Menos de um mês depois eu estava em Londres, pronta para fazer testes e mais testes, para o filme “Chico”.
Visitei Pinewood, onde estava instalado o escritório da produção onde vi as fotos e a evolução do projeto. Estavam construindo Xapurí, nas Selvas de Costa Rica. Encontrei-me com o Diretor do filme, Chris Menges.

Antes dessa viagem, em Paris, enquanto me preparava para os testes do filme, recebi, de Londres, páginas do roteiro com cenas que eu devia interpretar e vários livros e fitas com documentários filmados pelo cinegrafista inglês, Adrien Cowell.
Cowell havia viajado por longos períodos, desde 1950, no Brasil fazendo documentários para a televisão Inglesa e filmou tribos de Índios e também Chico Mendes. (The Last of the Hiding Tribes, The Decade of Destruction, The Killing of Chico Mendes).
Cowell usava uma equipe de brasileiros para fazer seus filmes, mas Chris Menges havia sido seu cinegrafista, em vários desses projetos e o filme seria uma adaptação baseada na vivencia de Andrien Cowell com Chico Mendes, que resultou também num livro.

Consumi os livros, como se diz- num tapa.
Fiquei impressionada com o material, pois vivia na França (fazia cinco anos, nessa época) e longe do Acre desde 1975, quando papai vendeu nosso seringal e fomos nos estabelecer em Belém. Isso quer dizer que fazia então 16 anos que eu havia deixado o Acre e desconhecia a “realidade” local. No início pensei- porque vivia na Europa-, mas eu telefonei para minha família e alguns amigos no Brasil, muitos deles só tomaram conhecimento de quem era Chico Mendes e do seu trabalho, do que se passava no Acre, depois de sua morte. Impressionante que eu na França (recebendo material feito e editado pelos Ingleses) agora sabia mais da QUESTÃO do Chico Mendes e sua luta, que muitos brasileiros.


O “sistema” do SERINGAL me era muito familiar, afinal meus pais haviam sido donos de seringais. Papai havia herdado os seringais Mercês e São João, em Sena Madureira. Meus avós haviam sido pioneiros no Acre. Meu bisavô, pai de minha avó Emília (mãe de papai), Agostinho Escócio Vieira Drummond havia trabalhado e lutado ao lado de Plácido de Castro, que mediu São João e lhe conferiu título de posse. Nasci e cresci vendo fotos, ouvindo a história da minha família. Fernando e eu os mais novos de uma família de 10 irmãos, nascemos em Rio Branco mas fomos criados indo e vindo ao seringal Mercês.Cézar e Elzira nasceram na Copaíba, sede do seringal e Zuleide, a nossa irmã mais velha, havia nascido numa colocação que se chamava “Maloca”, evidente a origem do nome. Mamãe e papai enterraram Maria Emília nossa irmãzinha de 4 anos, na sombra de uma mangueira da Copaíba, o mesmo destino, um bebê que não teve tempo de ser batizado - mas que papai e mamãe chamaram de João Escócio. Zéles nosso irmão mais velho nasceu no Pará, estado natal de nossa mãe.

E a vida no seringal com seringueiros (os fregueses de papai), brincando com filhos de seringueiros eu sabia de cor e salteado, o seringal era o lugar onde eu passava minhas férias, onde eu havia vivido e convivido, toda minha infância e início de adolescência. Mas dessa vez, graças ao Sir David Puttnan, o PRISMA- a partir do qual eu via o SERINGAL ia mudar. Eu ia ter que APRENDER a olhar, a partir do ponto de vista do SERINGUEIRO.


O trabalho de atriz no qual me lancei, durante esse período de estudo e pesquisa sobre Chico Mendes (e Ilzamar) foi um PESADELO para mim, porque pela primeira vez na minha vida eu tive que me INVESTIR – intimamente- num trabalho (de ficção) mas que parecia muito próximo à pessoa que eu SOU, na vida real.
Teoricamente, o trabalho do ator é de se ‘alimentar’ de informações e (pessoas) de maneira que ele/ela possa elaborar sua maneira de interpretar, bem também depende da sua formação. Jamais segui academias, conservatórios, comecei a trabalhar no cinema somente usando minha INTUIÇÃO.

Fiz alguns cursos com o professor Jack Waltzer, da Actor’s Studio de Nova York. Ele me ensinou a usar do meu instinto, me empurrou a me “jogar” em cena, usando minha vivência e personalidade , para ‘construir’ o personagem, tal o METODO (Stanislavsky System). Jack Waltzer sempre (gritava) me dizendo para eu ter fé no meu instinto e não “intelectualizar” minha maneira de atuar. Mas eu não estava preocupada com a maneira com a qual eu ia “interpretar” Ilzamar.

CHICO MENDES para mim era um ser IRREAL e nessa altura da história do Brasil ele havia subtamente se transformado em um HERÓI NACIONAL.
Então ele se tornava para mim, ainda mais inacessível, “etéreo”...
Ilzamar devia ser certamente uma cabocla da Amazônia, talvez igual à mim, minha mãe ou minhas irmãs, afinal SOMOS da mesma região, com muitas características parecidas, entre elas, físicas, mas eu estava ‘estudando’ uma Ilzamar, que havia sido a ESPOSA de Chico Mendes e mãe de seus filhos, uma moça que parecia ter...
“saído de uma tela de Paul Gauguin”, como havia me dito Sir David Puttnan, Chris Menges e estava assim escrito nos livros.
Silvana a atriz tinha que elaborar essa figura exótica, vindo da Polinésia, mas nascida no Acre. Em Xapuri.

E tentava “não intelectualizar”, mas estudar a vida de Chico Mendes foi para mim uma REVELAÇÃO, também um enorme CHOQUE.
Tive que aprender a me despojar de TUDO o que eu havia aprendido/que haviam me ensinado, desde menina: Crenças, atitudes, pensamentos, pré-conceitos, referencias, ensinamentos, “filosofia”, romantismo, enfim, tive que separar – literalmente- tudo o que eu CONHECIA, minha VIDA enfim, até então.

Precisava ME IMAGINAR numa outra vida,
que era ou tinha sido ou poderia ter sido- a vida de um SERINGUEIRO (A) naqueles dias, no Acre, para poder me sentir capaz de olhar/compreender a VERDADEIRA MENSAGEM que- acredito- Chico Mendes deixou.

Para tentar minha chance na tela (sendo “Ilzamar”) tive que DESCOBRIR o que (teoricamente) uma jovem mulher (bonita), inexperiente e “selvagem” estava vivendo (interiormente) durante os anos em que seu marido pregava e atuava como Serigueiro, Sindicalista, Ativista e “Ambientalista”- que era um termo novo nessa época, que não havia uso na linguagem cotidiana.

A primeira vez que encontrei Chris Menges, o diretor do filme, foi na casa de Priscilla John, a diretora de elenco do filme, em Londres.
Chris Menges tinha chegado do País de Gales para tomar o café da manhã comigo e nosso encontro tinha como objetivo, aprender a nos entrosar.
É um processo natural entre o diretor e uma atriz, no decorrer de um projeto de filme e ele ia também escolher a roupa que eu devia usar para os testes. Ainda em Paris, me preocupei em comprar farinha (de mandioca/macaxeira), numa importadora.
Não era do Brasil, nem do Acre, vinha da África (cassava) e preparei para ele comer uma farofa com carne (enlatada), como a gente fazia na época em que morávamos no seringal. Misturei ovos, comemos acompanhado com café preto.

Chris Menges é um homem culto, certamente (de esquerda), sensível e um brilhante diretor e cinegrafista. Antes de encontrá-lo, me preocupei em ver os filmes que ele havia trabalhado e dirigido. SENTI- foi uma intuição jamais soube a verdade,
desde o primeiro minuto que me viu- que eu não era a atriz de seus sonhos para fazer “Ilzamar” (por ser FILHA de Seringalistas- não de Seringueiros).

Mas Chris Menges e eu passamos um bom momento juntos, lhe mostrei um álbum com fotos da minha família, fotos recentes daquela época, que eu havia tirado no Acre, na minha última viagem. Depois de longas horas de conversa sobre a vida no seringal, uma série de perguntas do que eu achava e pensava sobre Chico Mendes- ele me perguntou assim: “Ilzamar, quero dizer- Silvana, você acha que se casar com Chico Mendes – poderia se dizer... que teria sido para uma JOVEM- como ‘descolar’, ‘pescar’ um peixão?”

Eu achei muito engraçado, pois na minha cabeça vi a JOVEM- seringueira (Ilzamar), apaixonada por um homem mais velho que ela, barrigudinho, de bigode, talvez “brilhantina” no cabelo (como era costume do seringal)...
Imaginei que ERA POSSÍVEL. Sim.
Porque não existe explicação para o AMOR.
A gente se apaixona ou acha que está apaixonada, a vida da mata, do isolamento, da “solidão”, faz o resto.
Imaginei que Chico Mendes- por causa de sua personalidade- devia ser um homem especial, carismático e SIM. Era um “peixão”.
Nós rimos.

Chris Menges me testou de todo o jeito.
Ele me provocava e eu sentia que ele queria me “encurralar”, com perguntas. Mas eu estava calma e respondia com honestidade.
Jamais neguei que meus pais eram/foram SERINGALISTAS.
Jamais tentei esconder que toda minha família possuía terras, seringais, no Acre.
Teve um momento em que ele me disse assim:
“Se você fosse filha de Seringueira, não estaria morando em Paris, não teria tido essa chance, não se sente culpada?”

Sabia que ia me provocar o máximo, então eu tive que responder meu pensamento.
NÃO acredito que eu tive sorte em ser FILHA de Seringalista, para poder ir morar em Paris, na Europa.
Eu acho que eu tive sorte sim, mas eu fui atrás da minha SORTE, trabalhei, lutei.
Tive que lhe explicar como vivi e de que maneira cheguei até a Europa. O fato de ter tido a chance de ESTUDAR, sim, foi primordial nesse percurso mas quantas pessoas que estudaram- e são formadas- não vão até o FINAL, na luta por seus ideais?

Me lembro que ele disse algo, me comparando com uma “burguesa”. Me lembrei que Karl Marx era filho de “burgueses”. Usei isso como argumento, embora eu pessoalmente não estivesse atrás de fazer nenhuma “revolução”, na minha vida, muito menos de ter “seguidores”, em massa.

No estúdio, fiz os testes com um ator inglês, branco, careca e barrigudinho. Fizemos várias cenas juntos, ele fez o papel de Chico Mendes em algumas delas e outra ele fez Darly.

Voltei para Paris, onde eu morava na época. Durante alguns meses Sir David Puttnan me pediu que ESPERASSE respostas sobre o desenvolver do PROJETO que não estava “confirmado”. Assinei contrato para não falar –absolutamente nada- sobre o PROJETO CHICO MENDES, jamais dar entrevistas ou mostrar meus vídeos dos testes que fiz em Londres. Tinha a diretora de elenco ao telefone que me dizia o que estava “rolando".

Nesse período de ESPERA viajei para o Brasil. Fui à Belém e senti uma NECESSIDADE de voltar ao Acre.
De Rio Branco peguei um ônibus até Xapuri.
Me hospedei num pequeno hotel, onde dormi uma noite. No dia seguinte, depois do café, fui até a casa de ILZAMAR MENDES.

Me apresentei (mas NÃO PUDE DIZER NADA em relação ao filme), o que me deixava o tempo todo- me sentindo “culpada” e inconfortável, por causa da situação.
Foi uma TORTURA para mim.
Tinha vontade- tive o impulso- várias vezes em lhe contar tudo, sobretudo porque ela me recebeu muito gentilmente. Alta, sorriso doce, num rosto cheio de ternura.
Muito delicada e educada, Ilzamar aceitou meu pedido que lhe filmasse, assim que seus filhos e seu marido.

Foi para mim uma GRANDE EMOÇÃO e pela primeira vez senti- a REALIDADE.
Porque até então, ILZAMAR e CHICO MENDES, para mim eram um PROJETO DE FILME. Ficção.

(CONTINUA...)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

ROSES OF PICARDY




Dansons la Rose (Yves Montand à l´Olympia de Paris), Version Française de ROSES OF PICARDY by Haydn Wood)

Dire que cet air
Nous semblait vieillot
Aujourd'hui
Il me semble nouveau
Et puis surtout
C'était toi et moi
Ces deux mots
Ne vieillissent pas
... Souviens-toi
ça parlait
De la Picardie
Et des roses
Qu'on trouve là -bas
Tous les deux
Amoureux
Nous avons dansé
Sur les roses
De ce temps-là .

sábado, 22 de novembro de 2008

POEMA (Dom Quixote da seringa)

DOM QUIXOTE DA SERINGA

O homem de pele amarela!
quebrou o jejum bem cedo (pirão de guariba e chá de cidreira)
com a roupa defumada
entranhada de leite de seringa
se jogou no varadouro
e foi cortar

O homem da pele amarela!

Às costas o jamaxim
tão assim grudado
que arrancá-lo antes da noite
é como tirar couro de veado
para patrão comer
é difícil como o saldo
hô diacho!

Vai dentro dele
tabaco para mascar
uma mão de farinha
sua amiga enfadonha
a poronga
uma lasca de jabá
uma faca assassina
que fere a árvore
de onde escorre um sangue branco

O homem da pele amarela!

Levantou bem cedo
comeu pão com café
calçou sua sandália de borracha
caminhous nas ruasdesertas de seringueiras
venceu oito quarteirões
e cinco dúzias de arranhas-céus
e se acabou numa fila do funrural
amarelo e sem sangue

O homem da pele amarela!

(Fernando Sérgio Escócio Drummond Viana de Faria),

Antologia de Poetas Paraenses, 1984,
Coordenação de João do Rego Gadelha,
©SHOGUN ARTE, 1984

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

EARLS COURT, London- Discover Dogs 2008

Maya, sábado à tarde, dia 9 de Novembro, no Show de CACHORROS.

Foto dela apareceu na WEBPAGE do THEKENNEL CLUB.
www.flickr.com/photos/thekennelclub/page13

(Algumas horas antes do "famoso" acidente).

domingo, 9 de novembro de 2008

Graças à DEUS e aos ANJOS




Jamais questionei DEUS.

Desde pequena acordava e ia dormir com Deus, Santa Maria, Bebê Jesus, Menino Jesus, Adulto Jesus, Nossa Senhora e o Santo Anjo da Guarda. Sem contar que havia sempre por ali e acolá- a presença do Diabo (o inevitável cão- como chamava quando menina), o espírito das trevas, aquele que faz parte do Sistema, o mestre da tentação... e de quem me arrepiava de mêdo, às vezes somente em ouvir o pronunciar do seu nome.

Cresci entre uma mãe católica e um pai católico.
Papai embora criado na religião católica, antes de se ajoelhar para rezar, obedecia à uma filosofia -e fazia seu possível (e impossível)- para seguir os passos do pai e avô dele que acreditaram e seguiram os princípios da "Ordem da Maçonaria", da qual eram associados.

Fui batizada, fiz primeira comunhão e estudei até o final do ginásio, em Colégio de freiras. Primeiro no Instituto São José em Rio Branco, depois no Colégio Santa Rosa, em Belém, mas nunca me senti uma “cristã” exemplar e a primeira chance que tive, me rebelei e pedi que mamãe me tirasse da tutela (e de debaixo das saias) das Freiras.
Fui estudar no (Sociedade Civil) Colégio Moderno, em Belém.

Já na Faculdade, como todo adolescente rebelde e confuso, eu vivi uma fase muito violenta de questionamentos e de impulsos suicidas. Sim. Porque era romântica e como os românticos eu precisava ir até o fim do ato do romantismo e morrer de amor, no sofrimento, na amargura, na obscuridade e no desespero.
Havia uma bela causa para morrer (ou melhor, me matar) e eu ia me estrangular ou cortar as veias, sangrar até a última gota, motivada pelo meu profundo egocentrismo desesperadamente amoroso e apaixonado.

Nazareno Tourinho (e sua generosidade) me resgatou do suicídio e com seus conselhos comecei a ler os livros de Alan Kardec e tive pela primeira vez um contato com a Doutrina Espírita. Foi uma revelação.
Mas a vida continuou e deixei o Espiritismo.
Continuei viva e curiosa, mas sem praticar nenhuma religião.
Na minha vida de adulta continuei lendo e num outro momento que me senti desesperada, aqui em Londres, busquei conforto, novamente na Doutrina Espírita.
Durante um ano certinho eu fui aos encontros e li, estudei e pratiquei.

Hoje eu me recuso fazer parte de “clubes”, associações, entidades.
Eu preciso viver a vida sem “laços” e sem carteirinhas de sócio.
Não tenho nenhum tipo de fanatismo, não sou adepta à seitas nem crenças nem rituais, nem religião. Minhas duas filhas não são batizadas, não torço para time de futebol, não tenho grupo de rock, não tenho ídolos, não assino nenhum jornal nem revista, não freqüento os Alcoólatras Anônimos nem tenho preferência por escola de samba no carnaval, não tenho partido político, não faço passeata nem desfilo com bandeiras, não uso crachás, não uso griffes, não sou vegetariana, não tenho nenhum tipo de convicção, não sigo nenhuma filosofia Budista ou oriental nem ocidental, apenas pratico meditação porque sou muito nervosa, energética e agitada.
Meditar 15 minutos por dia me ajuda a enfrentar o batente.
E continuo com o desejo de me "sentir livre" para acreditar e cultuar o que eu acho o certo, para mim.
Sou tolerante com a religião e crença dos amigos, parentes e desconhecidos.
Não questiono a fé e obediência de ninguém (ao contrário, tenho respeito e admiração pelos que acreditam, sobretudo os disciplinados) e acho que cada um tem o direito pleno de acreditar e rezar no livro que bem entender e desejar.
Se minhas filhas quiserem seguir uma religião eu não vou impedí-las.
Eu decidi cultuar a HONESTIDADE do espírito e levar uma vida fazendo e praticando o BEM. Procuro ser (à medida do possível) Politicamente Correta, fico do lado dos pobres e indefesos se tiver que escolher um lado e faço reciclagem do meu lixo, como comida orgânica, se não puder como qualquer tipo de comida e procuro economisar o máximo que posso na minha casa (energia, água, gás) etc... e decidi que essa é minha religião e minha filosofia.

Ontem eu sofri um acidente.
Maya estava comigo no carro.
Eu havia acabado de sair de um estacionamento e pegava uma rua muito estreita, como são algumas ruas aqui de Londres, algumas delas, muitas vezes- duas mãos.
Mas essa rua era mão única, muito estreita, ambos os lados empilhados de carros estacionados e me lancei.
No momento em que eu perguntava “Maya, e o cinto, já colocou?”
Antes que ela pudesse responder eu freiei bruscamente, porque um homem apareceu bem na frente do meu carro, não sei de onde saiu.
Literalmente ele ocupou o MEIO da rua, com a porta do carro dele aberta.
Eu tive tempo de dizer “Meu Deus!” e a Maya voou para frente, batendo com a cabeça no vidro do painel do carro.
O vidro rachou de cima em baixo.
Examinei a cabeça da Maya, saber se ela não tinha nenhuma ferida ou uma lesão.
O homem que se aventurou na frente do carro apenas olhou para mim e continuou o que estava fazendo.
Ele estava colocando um guarda-roupa no maleiro do carro dele e não se importou de pedir “emprestado” a rua – onde eu ia passando dirigindo o carro.
Não havia o que entender.
Era ELE ou EU/meu carro, naquele espaço.

Automaticamente eu abaixei o vidro da minha janela e gritei por “Socorro”.
Pedi que o homem viesse me ajudar, ver de perto o que havia acontecido.
Duas outras pessoas apareceram e percebi que estavam juntos.
Eu insisti que viesse (POR FAVOR) ver o que havia causado, pedi que me AJUDASSE.
Me sentia tal chumbo, tão pesada e meu coração batia acelerado.
Tive mêdo.
Pedi. "Senhor por favor, me ajude".
O homem disse em voz alta, para todos ouvirem, “Não é problema meu, não me culpe por seus erro.”, e me ignorou.
Estava acompanhado inclusive de uma senhora idosa, os três continuaram empurrando o armário para dentro do carro deles, como se nada tivesse acontecido.
Percebi que falavam inglês com sotaque estrangeiro.

Muito nervosa e confusa, sai do carro e peguei meu celular.
Meu primeiro intuito foi chamar 999, o número da Polícia que também é ligado ao serviço de ambulância.
Nesse momento, não esquecendo que estava no MEIO de uma rua, estacionada,
um carro se aproximou e parou atrás do meu.
Tive tempo de ler, escrito: “Polícia” no capô do automóvel e nas portas.
Disse para mim mesma, “Só pode ser um Milagre de Deus.”
Andei em direção do carro, dele desceram dois Policiais Ingleses.
Um deles ficou comigo o outro seguiu para ver o que havia acontecido, pois nesse momento os dois homens e a mulher pareciam inquietos, na calçada.
Não ouvia o que diziam mas o Policial gritou com eles com autoridade e ai subitamente eles fizeram silêncio.

Tive tempo de explicar o que EU HAVIA VIVIDO naqueles últimos minutos, para o Policial que havia ficado comigo. Ele pediu que eu me acalmasse e me acompanhou para ver a Maya, que, coitadinha, estava COLADA, sentada no banco do meu carro. Olhos arregalados, em silêncio.
Peguei-a nos braços e a consolei.
Só pude dizer “Graças à Deus, você está viva”.

Bem, ficamos todos ali, na rua, fazendo o constato e perícia.
Cada um dava sua versão dos fatos.
Tinha razão, o Homem e seus amigos eram Filipinos.
De repente, tomei um susto, pois uma ambulância chegou imediatamente.
O Policial havia pedido que viessem examinar a cabeça da Maya.
Ele explicou que fez isso por prudência.

Quanto à mim, tive que assoprar num “balão”.
Fazia parte da investigação para ver se estava dirigindo “alcoolizada”.
O teste deu negativo, obviamente.
Mas a prioridade era a Maya.
Ela estava muito calada e depois começou a chorar, soluçando.
Os dois Enfermeiros que vieram na ambulância acharam mais seguro levá-la para ser examinada por um Médico no Hospital e se necessário fazer exames.

Chegando ao Pronto Socorro, para nossa surpresa, o Martin, meu marido, estava lá.
Nesse meio-tempo a Polícia havia telefonado para nossa casa- para investigar se eu havia dado o endereço e telefone corretos e o Martin quem atendera ao chamado.
Explicaram para ele o que havia acontecido, ele já havia então ido ao local do acidente, pegado o nosso veículo e rumado para o Hospital. Chegou antes da ambulância.

Maya foi examinada. Estava bem, não havia sinais de cortes nem sangue.
Tivemos que esperar durante quatro horas num leito do PRONTO SOCORRO, tempo que ela ficou em observação, caso de haver sangramentos ou alguma lesão interna.
Fomos liberados, deixamos o hospital, chegamos em casa 9 horas da noite.

Ajoelhei e REZEI.
Agradeci à Deus por minha filha estar viva e sã.
Agradeci à Deus por eu estar viva.
Agradeci à Deus pelo Homem (Filipino) estar vivo.


Voltando ao PRONTO SOCORRO.
Estávamos sentados, quando entraram na sala os dois Policiais Ingleses que vieram conversar com Martin e comigo. Era praxe.
Eles precisavam que assinássemos um papel, questão de protocolo e pedia que eu me apressentasse na próxima segunda feira na Estação de Polícia do meu bairro com os documentos de seguro do carro.
Eles explicaram que o Senhor (do acidente) era Filipino, morava ali naquele local com a família e tinha a intenção de transportar um armário no bagageiro de um carro (menor que o armário).
Esse Senhor Filipino disse ao Policiais que EU estava dirigindo “Feito uma louca” e que eu dizia coisas sem nexos, como se eu tivesse “Drogada”.
Disse que o acidente tinha sido MINHA culpa.

Claro que eu fiquei furiosa com essa versão, mas o Policial -que desde o início me atendeu-, me pediu que eu ficasse tranqüila.
Ele explicou que,
SE eu tivesse dirigindo “feito uma louca” - em alta velocidade, como o Filipino dissera,
a Maya teria VARADO o painel da frente do carro e
o Filipino não estaria ali, inteiro, contando lorotas (eu teria arrastado ele, a porta do carro dele e o pedaço do armário juntos)!
No entanto EU estava fora-da-lei pois saíra do estacionamento sem me certificar que a Maya havia colocado o cinto de segurança.

O Policial nos perguntou se nós tínhamos a intenção de PROCESSAR o Senhor Filipino por NEGLIGÊNCIA (falta de dar atenção e ajuda à pessoas em perigo) e nos explicou que eles já o haviam multado, por ‘tentativa de transportar objetos num carro sem qualificação para aquele tipo de carga’- e nos explicou – que se fossemos em “Juízo” iríamos ganhar a causa.
Martin e eu olhamos um para o outro e (cúmplices) dissemos a mesma frase,
quase ao mesmo tempo: “Deixe pra lá. O importante é que estamos todos com vida”.
E eu completei... “Graças à Deus”.


DOIS ANJOS enviados por DEUS.

Maya e os Dois Policiais Ingleses que nos socorreram.
A foto tirei com meu celular- a qualidade não é genial, mas o momento ficou registrado.

Amém.